Ídolos em campo, silêncio fora dele: o machismo que o futebol ainda tolera

A cultura do futebol ocupa lugar central na sociedade brasileira. Mais do que um esporte, o futebol é um espaço de identidade coletiva, paixão popular e construção simbólica de ídolos. Contudo, ao lado de sua potência cultural e social, também reproduz, e muitas vezes amplifica, padrões estruturais de desigualdade presentes na sociedade, entre eles o machismo naturalizado.

Em diversos episódios recentes, tornou-se evidente como parte da cultura futebolística ainda trata com condescendência ou relativização casos graves de violência contra a mulher. Jogadores que cometeram ou foram condenados por crimes graves seguem sendo, em determinados contextos, celebrados por parcelas da torcida, recebendo aplausos em estádios, manifestações de apoio nas redes sociais ou discursos que tentam dissociar o “ídolo em campo” do “homem fora dele”.

Casos envolvendo atletas como Robinho, condenado na Itália por participação em estupro coletivo, ou Daniel Alves, condenado na Espanha por agressão sexual, expuseram esse fenômeno de forma contundente. Mesmo diante de decisões judiciais e da gravidade das acusações, parte do debate público foi permeada por tentativas de minimizar os fatos, desacreditar as vítimas ou tratar os episódios como “questões pessoais”, desconectadas da responsabilidade social que figuras públicas carregam.

O caso de Bruno Fernandes, condenado pelo homicídio de Eliza Samudio, também se tornou emblemático nesse contexto. Após cumprir parte da pena, sua tentativa de retorno ao futebol profissional gerou forte reação social, mas também revelou um segmento da cultura esportiva disposto a relativizar crimes graves em nome do talento esportivo ou da memória de performances em campo.

Situações semelhantes também emergem nas categorias de base, como no episódio recente envolvendo jovens atletas investigados por estupro no Rio de Janeiro, que reacendeu o debate sobre a formação de jogadores dentro e fora das quatro linhas. Esses casos evidenciam que o problema não se limita a indivíduos isolados, mas revela fragilidades institucionais na formação ética de atletas e na responsabilização dentro do ambiente esportivo.

Mais recentemente, um episódio ocorrido no Acre trouxe novamente à tona essa discussão. Durante uma partida da Copa do Brasil, o Vasco Futebol Clube (AC) entrou em campo com camisas que estampavam os nomes de três jogadores presos sob suspeita de participação em estupro coletivo. O gesto, apresentado por alguns como manifestação de apoio aos atletas, acabou sendo interpretado por grande parte da sociedade como um grave equívoco simbólico: transformar um espetáculo esportivo em palco para homenagens a investigados por um crime dessa natureza transmite a mensagem de que a violência contra a mulher pode ser relativizada quando envolve figuras do universo do futebol.

Quando agressores são aplaudidos, relativizados ou reinseridos no espaço de idolatria sem reflexão crítica, transmite-se uma mensagem social perigosa: a de que o talento esportivo pode se sobrepor à gravidade da violência. Essa lógica contribui para perpetuar a cultura de silenciamento das vítimas e reforça estruturas de poder historicamente marcadas pela desigualdade de gênero.

É preciso lembrar que o futebol, justamente por sua enorme influência social, tem também o potencial de atuar como agente de transformação. Clubes, federações, confederações e atletas possuem papel relevante na construção de uma cultura esportiva que não apenas condene a violência, mas que também promova educação, respeito e igualdade.

Nesse contexto, torna-se ainda mais relevante reafirmar que o futebol deve ser, acima de tudo, um espaço de convivência social, lazer e entretenimento seguro para todos. Os estádios precisam ser ambientes em que famílias se sintam acolhidas, onde crianças possam crescer vivenciando a paixão pelo esporte e onde mulheres possam estar presentes sem medo, sem constrangimentos e sem a sensação de que aquele espaço não lhes pertence.

Garantir essa segurança e respeito não é apenas uma questão de gestão esportiva ou de políticas institucionais, mas de transformação cultural. Um futebol verdadeiramente popular e democrático é aquele em que a emoção das arquibancadas convive com valores de respeito, inclusão e responsabilidade, permitindo que todas as pessoas, independentemente de gênero, ocupem os estádios com liberdade, dignidade e segurança.

Superar o machismo naturalizado no futebol não significa negar a paixão pelo esporte, mas reconhecer que a cultura esportiva precisa evoluir. A idolatria não pode servir de escudo para a impunidade. Ao contrário, o tamanho simbólico do futebol impõe uma responsabilidade proporcional: a de contribuir para uma sociedade que não celebre agressores, mas que valorize o respeito, a dignidade e a integridade de todas as pessoas.

Talita Garcez. Advogada. Sócia Fundadora do Garcez e Advogados Associados. Especialista em Direito e Processo do Trabalho. Especialista em Direito Desportivo. Presidente da Comissão Disciplinar da Liga Campineira de Futebol. Auditora Suplente da Comissão Disciplinar da Federação Paulista de Volleyball. Membro da International Association for Football Lawyers (AIAF), Instituto Brasileiro de Direito Desportivo (IBDD) e Comissão Estadual de Direito Desportivo da OAB/SP

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