Saúde mental ganha espaço entre jovens, mas tolerância à frustração preocupa

Para psicólogo, nova geração ampliou o vocabulário emocional, mas ainda precisa desenvolver recursos para lidar com limites e desconfortos

Nunca se falou tanto sobre saúde mental como nos últimos anos. Entre crianças e adolescentes, termos como ansiedade, autoestima, trauma, crise e relacionamentos tóxicos passaram a fazer parte das rodas de conversa. Esse cenário representa um avanço importante já que sofrimentos que antes recebiam o rótulo de “frescura” ou falta de força passaram a receber a devida atenção.

No entanto, saber nomear o que sente não significa, necessariamente, saber lidar com aquilo. Essa é uma das principais contradições observadas pelo psicólogo Rafael Falco, orientador educacional do Colégio Jandyra. Para ele, a atual geração ampliou o vocabulário emocional, mas ainda precisa desenvolver recursos para enfrentar situações difíceis. “Uma coisa é reconhecer o que a gente sente. Outra é compreender aquilo, pedir ajuda quando necessário e conseguir continuar vivendo apesar de determinados desconfortos”, explica.

Na avaliação do psicólogo, saúde mental não pode ser confundida com ausência de sofrimento já que tristeza, medo, insegurança, frustração e ansiedade fazem parte da experiência humana. O alerta surge quando essas emoções apresentam intensidade ou duração fora do esperado e passam a interferir na rotina, no convívio social, no sono, no rendimento escolar ou no interesse por atividades que antes faziam parte da vida. “Uma prova importante pode provocar ansiedade. O fim de um relacionamento pode trazer tristeza. Uma rejeição pode gerar insegurança. Essas reações, por si só, não significam adoecimento”, relata Falco.

Ao mesmo tempo em que os jovens passaram a falar mais sobre saúde mental, também estão mais expostos a estímulos e cobranças no cotidiano. Redes sociais, comparação constante e excesso de informação fazem parte dessa realidade e podem dificultar a relação com a espera, o tédio e a frustração.

Falco ressalta, porém, que não se trata de atribuir toda a responsabilidade ao celular ou às redes sociais. O ponto central está na pouca oportunidade de experimentar situações sem uma solução imediata. “Quando a gente está entediado, pega o celular. Se alguma coisa incomoda, existe sempre alguma coisa para distrair imediatamente”, observa.

Para ele, esperar por uma resposta, ouvir um “não”, errar, perder ou estudar antes de dominar um assunto são experiências importantes para o desenvolvimento da resiliência emocional. “A frustração também ensina. Para o adolescente, que ainda constrói a própria identidade, a sensação de que outras pessoas estão sempre à frente pode aumentar a cobrança e a sensação de inadequação”, ressalta o especialista.

Escola e família devem ser aliadas

No ambiente escolar, um dos principais sinais de que algo pode não estar bem aparece nas mudanças de comportamento. Um aluno que passa a se isolar, falta com frequência, chora mais, demonstra irritabilidade, perde o interesse pelas atividades ou apresenta queda significativa no rendimento merece atenção.

Mas existe outro grupo que pode passar despercebido: o dos estudantes que mantêm excelentes resultados. Falco explica que um adolescente pode continuar tirando boas notas, entregando todas as atividades e cumprindo suas responsabilidades enquanto enfrenta um nível elevado de sofrimento e cobrança. Por isso, o desempenho escolar, sozinho, não indica que está tudo bem.

Cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes exige duas frentes que precisam caminhar juntas: acolhimento e desenvolvimento. É fundamental que o jovem saiba que pode falar sobre o que sente e que será ouvido. Também precisa desenvolver habilidades que a própria vida vai exigir como saber esperar, lidar com limites, ouvir “não”, perder, errar, resolver conflitos, controlar a raiva, pedir ajuda e agir mesmo diante da insegurança.

O papel dos adultos, segundo o psicólogo, é oferecer suporte para que crianças e adolescentes construam recursos para enfrentar essas situações com mais autonomia. “Acolher é estar perto. É dizer eu estou aqui, vou te ajudar, mas vamos descobrir juntos o que você consegue fazer com isso”, alerta o especialista.

Muitas vezes temos uma falsa ideia de que cuidar da saúde mental é evitar sofrimento e isso é uma missão impossível. Para Falco, mais do que ensinar os jovens a dizer “eu não estou bem”, precisamos ajudá-los a descobrir o que fazer depois que conseguem dizer isso. “Muitas situações da vida são desconfortáveis e nesse sentido, precisamos ajudar os jovens a construir recursos para lidar com isso. Família, escola e profissionais caminham juntas para ensinar os jovens a terem autonomia para lidar com os desafios naturais da vida. O que não podemos é fazer tudo por eles”, finaliza.

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