Histórias vividas na APAE Limeira mostram como a presença paterna fortalece o desenvolvimento, a autonomia e o vínculo familiar
Quando Alexandre Goulart entrou pela primeira vez na Unidade Neonatal da Santa Casa, ele não carregava apenas a ansiedade de conhecer o filho. Carregava um luto. Poucas semanas antes, havia perdido a esposa para um linfoma agressivo, diagnosticado durante a gestação.
Ele conta que tinha uma família bem unida. O primeiro filho tinha uns 7 anos e pedia sempre um irmãozinho. O desejo do primogênito foi atendido e junto um dos maiores desafios da vida do pai.
Aos 37 anos, Alexandre ficou viúvo e, ao mesmo tempo, pai solo de um bebê que nasceu com apenas quatro meses e meio de gestação, medindo 27 centímetros e pesando 500 gramas. No lugar onde muitos enxergariam apenas a dor, Alexandre encontrou um propósito. “Eu tenho um pensamento: o que vier para mim, eu assumo. Formei uma família e tenho que honrar”, conta.
Todos os dias ele atravessava o mesmo caminho até a UTI Neonatal. Entrava, fazia sua oração e observava o pequeno Pedro lutar pela vida. “Eu via a força que o Pedro tinha para viver”, lembra o pai. E assim foram meses de espera.
Quando o bebê atingiu 1,250 kg, deixou a UTI e seguiu para o quarto, os dois tiveram que permanecer ali por mais um mês. E foi nesse período que Alexandre viveu um dos momentos mais marcantes da sua trajetória. “Quando as enfermeiras disseram: ‘pai, agora você vai fazer o canguru’. Eu nem sabia o que era. Eu aprendi, fiz e foi uma alegria sentir o Pedro no colo, mas, ao mesmo tempo, uma tristeza. O primeiro colo deveria ter sido da mãe”, afirma.
Pedro recebeu alta justamente no aniversário do pai, em 12 de novembro de 2011. Foi um verdadeiro presente. “Vestimos a camisa e fomos para casa sem saber se iríamos conseguir”, conta.
Vieram as noites sem dormir, os medicamentos nos horários certos, as mamadas, as consultas médicas, as terapias, as reuniões escolares. Neste processo todo, Alexandre contou com o apoio da mãe e da sogra, mas assumiu integralmente a responsabilidade de criar os dois filhos.
Com o passar do tempo, percebeu que Pedro apresentava características que iam além das consequências da prematuridade. Pesquisou, observou, buscou respostas. Até que veio o diagnóstico de deficiência intelectual. A notícia não mudou a forma como enxergava o filho. “Se o filho é meu, não importa o que ele tem ou vai ter. Para mim, ele já era um guerreiro, e isso bastava”.
Alexandre conta que uma das suas maiores preocupações continua sendo preparar Pedro para a vida, compreender cada etapa do seu desenvolvimento e pensar em como o filho seguirá quando ele não estiver mais presente. Ele admite que houve momentos de exaustão. “Várias vezes pensei que estava no meu limite, pelo cansaço, pelo estresse, pelo desânimo. Mas sempre lembrava de uma coisa: meus filhos não pediram para nascer. Então sou responsável por eles”, lembra.
Hoje, aos 52 anos, ele resume sua missão de forma simples. “Não importa se eu acertei ou errei. O importante é que meus filhos tenham certeza de que o pai nunca os abandonou”, finaliza.
A presença que transforma
Histórias como a de Alexandre ajudam a ilustrar um aspecto que especialistas consideram essencial para o desenvolvimento infantil que é a presença ativa do pai.
O psicólogo da APAE Limeira, Cristian Roberto Francisco de Assis, explica que o envolvimento paterno vai muito além do apoio à mãe. Quando participa da rotina, demonstra afeto, acompanha consultas, terapias, atividades escolares e compartilha as responsabilidades do cuidado, o pai contribui diretamente para o desenvolvimento emocional da pessoa com deficiência. “A presença paterna fortalece a autoestima, transmite segurança e ajuda a criança a desenvolver vínculos afetivos saudáveis. Isso reflete na forma como ela enfrenta desafios, constrói autonomia e se relaciona com o mundo”, ressalta.
Segundo ele, esse envolvimento também favorece a independência já que, ao estimular pequenas conquistas do cotidiano, respeitando os limites e valorizando as capacidades, o pai fortalece a confiança do filho e amplia suas possibilidades de participação na sociedade.
Outro benefício importante é o fortalecimento da dinâmica familiar. Quando o cuidado é compartilhado, reduz-se a sobrecarga física e emocional da mãe, criando um ambiente mais equilibrado para toda a família. “O pai não é apenas um coadjuvante no cuidado. A presença dele é um fator decisivo para o desenvolvimento emocional, para a autonomia, para a inclusão e, principalmente, para a autoconfiança e qualidade de vida da pessoa com deficiência”, destaca.



