Isca! Isca! Venha ser fisgado pela Guerra Paulista!
Esta rima foi uma das chamadas ao apoio daquela que foi a última guerra civil ocorrida em território brasileiro, mais precisamente nas fronteiras de São Paulo com o Rio de Janeiro e Minas Gerais: a Revolução Constitucionalista de 1932.
Iniciado em 9 de julho, há exatos 93 anos, o levante tinha como principal objetivo exigir a promulgação de uma nova constituição para o país, uma resposta à centralização de poder promovida por Getúlio Vargas após a Revolução de 1930, da qual passou a nomear interventores nos estados e a governar por decretos-lei, numa clara alusão a um governo ditatorial.
O estopim se deu quando grupos de paulistas legalistas e de saudosistas dos tempos de hegemonia política de São Paulo sobre o país, cercaram a sede do PPP (Partido Popular Paulista), formado majoritariamente por tenentes apoiadores de Vargas, que responderam com rajadas de tiros, matando quatro rapazes, cujas iniciais de seus nomes formaram a sigla do movimento M.M.D.C, que organizaria a revolução. Este evento violento solidificaria a ideia de que o Brasil estava imerso em um governo despótico e autoritário e que, portanto, não poderia se estender.
Foram três meses de batalhas que mobilizaram mais de cem mil alistados voluntários e dez mil combatentes por São Paulo, lutando contra as tropas federais.
Mesmo diante de um amplo apoio popular dos paulistas, que mobilizaram doações, transporte, alimentação e abrigo aos combatentes, São Paulo se rendeu em 2 de Outubro. Mas vale ressaltar que embora militarmente derrotada, a revolução teve um importante papel simbólico e político, pois ela foi determinante para a aceleração dos trabalhos da Assembleia Constituinte e a promulgação da Constituição de 1934. Seu legado ecoa até hoje, especialmente quando se observa o papel vital da Constituição Federal de 1988 na manutenção da ordem democrática e na proteção dos direitos fundamentais do Brasil contemporâneo. A Constituição Cidadã, nasce após o fim da Ditadura Militar e consolidou um novo pacto social, centrado na dignidade da pessoa humana, no pluralismo político e na tripartição de poderes.
Enquanto a Revolução de 32 representou a tentativa de reinstaurar a legalidade e garantir a participação e representação popular na definição das leis, a Constituição de 88 é a realização prática desse ideal, pois garante liberdades civis, direitos sociais e institui mecanismos que buscam evitar o autoritarismo e os abusos de poder. Em tempos de polarização política e ataques às instituições, a lembrança de 1932 e o respeito a Constituição de 1988 e tornam ainda mais relevantes.
A luta dos paulistas, incluso limeirenses como Sargento Alberto Pierroti e Maria José Barroso, (Maria Soldado), ainda que há 93 anos, simboliza a constante necessidade de vigilância democrática. A Constituição de 1988, por sua vez, representa o amadurecimento desse processo: é o dispositivo que assegura que as vozes da sociedade sejam ouvidas, que os governantes sejam responsabilizados e que os direitos conquistados sejam protegidos. Desta forma, a história de 1932 não é apenas um episódio do passado, mas um chamado permanente à defesa da democracia e do estado de direito.
Rita Salmaso
Professora de História do Colégio Jandyra




